acabou-se.

E diz que vulcão vem de Vulcano, ou Hefesto, o deus do fogo.

E o Vulcano era feio,  coxo e dedo-duro – ele que cabuetou a Afrodite, coitada, que estava na cama com o Marte em vez do Júpiter, seu marido, que por sinal era feio também.

Eu imagino o que cresceu dentro do Vulcano diante de tudo aquilo que ele não tinha. Ele nao possuía a beleza de Apolo ou a leveza de Hermes, além de não saber o que era o amor.

E o que de dentro vai se avolumando, criando corpo e pressão, até um dia arremeter?

Um vulcão.

Mas sabe, nem sempre um vulcão

Esperando a roupa lavada secar, seco eu também.

O calor estúpido estufa paredes e impede o fino descanso, sem suores pelo corpo e sem incômodos. Estou na casa que um dia foi minha e que venho apenas como visita, apesar das coisas no quarto ao lado, minhas coisas misturadas com outras coisas que não minhas. Me arrasto pelos corredores com a modorra acorrentada aos tornozelos feito bola de ferro.

Ouço Baden Powell tocar Jesus, a alegria dos homens e resolvo lavar a louça do almoço. Detesto lavar panelas mas minha mãe também não gosta. Então eu lavo. A espuma leva a sujeira emborae eu não vejo a hora de tomar um café quente e forte.

Eu sentada no veículo oficial cheio de meninos e meninas risonhas batucando pagodes da estação passada me senti mais uma vez a pessoa mais solitária do mundo e apesar de tanto desalento ainda tive força pra puxar uma conversa com o motorista de óculos tipo ray ban

- Época boa, essa. Os amigos acima de tudo.

E o motorista com os óculos de ray ban assentiu e o trânsito abriu a guarda e o carro zuniu pela avenida que de tão livre parecia uma pradaria. Os meninos e meninas tocam tambores e nessa tarde especificamente eles estavam se senindo todos um corpo só.

E o Ivan deve é estar casado e ser o feliz proprietário de uma Honda Fan 125 cilindradas e de uma casa no bairro São Gerardo, porque eu acho que ele não é do tipo que fica muito longe dos pais. Inclusive esqueci de dizer que o pai dele tinha (ainda tem) uma bodega, daquelas que vendem óleo de soja a granel.  A mulher dele talvez trabalhe numa loja de shopping e eles têm dois cachorros e um papagaio trazido de Sobral.

Era o ano da graça de 1889 quando a barcaça Dona Luíza encalhou no Poço da Draça.

Dois anos antes o vapor Cearense afundou a 83 graus do antigo farol do mucuripe e 117 da catedral de Fortaleza.

Não sei por que essas coisas acontecem, não sei. Um navio grande assim sumir, vencido pelas águas.

Faço o desembarque de passageiros e de outras cargas. Levo nos ombros galinha dangola, filha de governador, escritores tísicos, carregamento de fumo.

Nasci no ano do encalhe do Dona Luíza e me sinto, como ele, dormente nessa província. 

Olho pra costa.

Dourada do pôr-do-sol da praia da Vila Morena, Carmen me acena com o pano branquinho das tapiocas.

É o sinal

pra esquecer de si, pra ignorar a dor, sem alienar-se, sem autocomiseração, na ausência de família, ou de amigos, de tudo o mais que o valha, a receita prescrita

e nem fiquei mareada

olhe, se eu fosse querer coisa que eu fosse ganhar – hoje, digo hoje – eu ia querer

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